domingo, 29 de março de 2009

As manhãs de domingo em minha infância sempre serviram para descobertas de novos sons a partir do gosto musical e experimentos do meu pai. Desde chorinhos, Milton, Bethania, Caetano até Bread e muito, mas muito Beatles. Ficava maravilhada com as melodias que invadiam as frestas do meu quarto e me faziam levantar meio sonolenta, cabelo bagunçado, olfato ativo pelo cheio do café forte da minha mãe, sorriso aberto da minha avó que sinalizava o caminho do banheiro. Após todo ritual de mau-humor matinal + escovação de dentes + café com pão, chegava a hora de sentar-me no chão frio ao lado da radiola e ficar observando aquele adesivo do meu dos LPs rodando e rodando. Os dos Beatles tinham geralmente uma foto de maçã verde, os nacionais, em grande parte, possuíam o símbolo da Philips. Existiam 02 em particular que me chamava atenção: “Shaved Fish” do John Lennon e “Muito (Dentro da Estrela Azul)” do Caetano. Tão diferentes na sonoridade e no design, sim, porque não eram somente as músicas que me hipnotizava, aquele mosaico de “Johns” era assustador e intrigante que acredito eu, moderno para aquela época. Por outro lado, havia o Caetano deitado no colo de D. Canô, aquela coisa bem nordestina, de “mainha”, de cafuné... Tão distintos (às vezes nem tanto assim) e tão deliciosos de ouvir. Hoje, cerca de 20 anos depois, e de novas tecnologias nos hipnotizando de outras formas, ainda não nada tão eficaz para combater o meu mau-humor de certos domingos quanto a combinação John + Caetano.