domingo, 5 de fevereiro de 2012

O Tempo e Eu

Ontem eu e o tempo reafirmamos o pacto que selamos no ano passado. Regado a uma boa massa e vinho, revisamos as cláusulas e reajustamos algumas condições. Ficou determinado que eu tentarei não manipulá-lo (até porque é desperdício de energia) , estudarei os erros do passado para que finalmente eu desenvolva maturidade e a capacidade de espera.
Em contrapartida, o tempo vai continuar sendo generoso. Mantendo meu espírito jovem, os olhos de debutante, o coração amolecido e passional. O tempo prometeu passar rápido para as coisas que não precisam de apego, durar o tempo necessário para o que preciso aprender e demorar bastante nos momentos que jamais quero esquecer.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Os Descendentes

Esqueci hoje no ônibus um cachecol que eu adoro, adoro muito principalmente pelo valor sentimental e simbolismo que ele tem para mim. Quando me dei contei que deixei ele em cima do banco, lembrei-me do filme Os Descendentes. Lembrei porque apesar de ser um ato banal, eu não queria me desfazer do cachecol e Os Descendentes (guardada as devidas proporções) trata exatamente sobre desapego. Este verbo tão conjugado por mim e por tantas pessoas e tão difícil de praticar. Mas o que me tocou, me levando a lágrimas, no filme (que cinematograficamente não é uma grande obra) é sempre a identificação que tenho com os protagonistas dos filmes do Alexandre Payne. Seus personagens, decidem, ou talvez seja o único meio que conhecem, tratar sempre de assuntos dolorosos, assuntos complicados, assuntos com certa carga de sentimentos (deles e dos outros), assuntos pesados, com humor, rindo de si mesmo e apesar de não saber direito como lidar, como resolver, indo às cegas, às tontas, de uma maneira torta, eles vão em frente tentando fazer o que eles acreditam que é o certo, nem que este “certo” esbarre na nossa natureza tão humana de sermos egoístas, apegados, confusos, cheios de cicatrizes...
No filme, o protagonista vive duas situações distintas. Uma em que o controle esta nas mãos dele e outra que ele não tem nenhum controle. E são sempre as situações que mostram a nossa impotência que nos trazem mais sofrimentos. A gente quer e quer muito que determinadas coisas nunca morram, mesmo que já não nos faça tanto bem, mesmo que para mantê-las vivas, a gente tenha que enfiar mais ainda o dedo na ferida. E o filme fala justamente disto e tenta nos ensinar que muitas vezes a gente não tem outra opção a não ser deixar as coisas irem, o que a gente pode e deve, é nos despedir da melhor forma possível e nos perdoar. Perdoar a nossa impotência, perdoar as coisas que “poderíamos” ter feito e não fizemos. E o tempo, sempre ele, se encarrega do resto.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Bom Bocado

Foi assim que imaginei como deveria se chamar alguns deliciosos momentos da vida. Pequenos momentos. Com sensações grandiosas. A falta de urgência na vida, me fez ver que aquela história do pouco a pouco, das doses homeopáticas, de comer pequenas porções em 3 em 3 horas também sacia a fome.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Você Já se Apaixonou Hoje?

Devia fazer calor, pela blusa regata e mini-shorts que usava. Manhã de céu azulado, ela lembra bem, pois a altura que ostentava àquela idade era preciso erguer bem os olhos ao firmamento para não perder de vista o objeto desejado. Mesmo calçada com botas ortopédicas, ela corria sobre pedrinhas, que lhes causaram diversos arranhões e choros, atrás daquele objeto redondo que flutuava no ar, exibindo um certo brilho dependendo de onde o raio solar refletia, bailava por alguns instantes e se desfazia atingindo algum obstáculo físico ou apenas sumia no ar.


Naquele domingo ela se apaixonou pelas bolas de sabão do parque do Tororó, no seguinte, pelo efeito do vento nas paletas do cata-vento e tem sido assim pela vida adentro. Uma música, uma fotografia, uma lembrança, um gesto, um cheiro, uma respiração, um chamego, um estado de espírito, um movimento, um fenômeno natural, um fenômeno muito bem provocado, as coisas ilógicas, as horas não marcadas, partes do corpo, um corpo inteiro, pessoas, pessoas apaixonadas...


Apaixonar-se todos os dias, é oxigenar a alma-cabeça-coração. É alimentar a chama da vida. É a maneira que aprendi e escolhi viver hoje todos os outros dias da minha vida.





- Eu tenho medo de me apaixonar...

- E eu tenho medo de parar de me apaixonar.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Oração de Aniversário

Mesmo com o passar dos anos,
Que a menina que habita em mim continue caleidoscópica;
Que continue vendo o mundo em colorido, mesmo que a maioria das pessoas que habitam nele seja monocromática;
Que eu continue sendo surpreendida pelo esperado e mais ainda pelo inesperado;
Que eu me magoe menos,
E quando isto acontecer, que eu consiga fazer as pazes comigo mesma antes do dia terminar;
Que eu seja mais tolerante com as pessoas e principalmente comigo mesma;
Que e o tempo seja sempre o meu maior Mestre;
Que continue me apaixonando todos os dias;
Que continue sendo abençoada com pessoas que entram, que saem e, principalmente, que ficam na minha vida;
E que me proteja do meu maior medo: o de perder a capacidade de amar.

Que seja doce. Sempre.
Amém.

domingo, 27 de novembro de 2011

Adaptação

Há umas duas semanas atrás, eu pedi a ajuda de um dos meus gerentes num projeto novo do trabalho. Ele sentou na minha estação de trabalho e começou a esboçar a solução. Por ser canhota, uso o mouse do lado esquerdo. Ele ficava com os braços invertidos, usando o mouse e teclado, sugeri que puxasse o fio do mouse e o colocasse no lado direito e a resposta foi objetiva: “não precisa, eu me adapto as coisas.” Ele falou sem nenhuma arrogância, pelo contrário, numa naturalidade e pelo que eu conheço dele há quase 02 anos, isto é a mais pura verdade. Adaptar-se para ele é mais uma função do dia-a-dia, como comer, beber, respirar. Não há nada que solicitemos a ele, que ele não arrume um método de nos ensinar da forma que nos facilite e não da forma que ele faria.

Esta situação do trabalho me fez lembrar de uma árvore gigantesca que existe no meu caminho de casa ao metrô que faço quase todos os dias. Há muito tempo eu a tenho observado, principalmente durante as mudanças de estação. O cenário meio seco, com o fundo atrás todo cinzento no inverno, o tapete amarelo no chão ao seu redor na primavera e o seu verde reluzente desta semana.

Eis que paro para pensar no quanto algo que está imóvel tem a capacidade de reagir, de se adaptar às leis da natureza e às situações que o cerca. Meu corpo faz a mesma coisa. Na primeira noite que passei em SP, não consegui dormir, apesar de usar três edredons, devido ao “frio” de 21º C que me fazia bater os dentes. Hoje, eu praticamente durmo nua de tanto calor que sinto quando faz 21º C à noite.

Estamos o tempo todo fazendo isto. Nos adaptando, nos moldando, reagindo da maneira que sabemos às coisas que são inevitáveis e muitas vezes nem nos damos conta disto. E não vejo isto como algo ruim. Pelo contrário, esta característica já nasceu conosco, a gente que às vezes foge dela, no inevitável hábito de se manter na zona de conforto, de ficar no conhecido, na cabeça-dura e caminhando sempre pelos mesmos caminhos. É o gerente, a natureza e o meu corpo me respondendo a perguntas que ainda nem fiz.

Estamos quase no último mês do ano, estou aqui me preparando para montar a árvore de Natal e a atividade cerebral é sempre a mesma deste período, pensar em tudo o que aconteceu neste ano e acredito que foi o ano com a maior quantidade de situações novas, desconhecidas, rotineiras, desafiadoras, que me trouxe à tona diversas facetas minha que eu nem conhecia ou que estavam lá adormecidas.

Adaptar-se não é abrir mão do “seu jeito” de ser ou fazer as coisas. Adaptar-se é crescer. É expandir, criar e ganhar novas maneiras de fazer as coisas do nosso jeito.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O Almodóvar que habita em mim

As opiniões e adjetivos são diversos. Desde ruim e bizarro a maravilhoso e genial. Para mim, o que fica em A Pele Que Habito é a comprovação do papel que Almodóvar exercer em minha vida. O de trazer resposta, se não prontas, mas pistas sobre o meu próprio universo feminino e tudo isto pela alma de um homem. São raros, mas eles existem e Chico Buarque está ai para provar que Pedro Almodóvar não é o único. A Pele Que Habito está longe, bem longe de ser um ótimo filme do ponto de vista cinematográfico, para mim que considero Volver uma poesia e Fale Com Ela uma obra prima, a Pele Que Habito é um filme bem feito. Mas nem por isto deixou de me tocar, de me sensibilizar e de me fazer pensar como os outros dois. O último filme que me fez sair do cinema com a sensação de ter deixado a mente na sala de projeção foi Cisne Negro. Um filme aparentemente diferente do Almodóvar, mas que depois de algumas horas, eu percebi a ligação que a minha alma feminina fez entre eles. A loucura e passionalidade (parece que uma não vive sem a outra, não é?) expostas de uma maneira tão visceral. E mesmo daquela forma Almodóvar de ser que já conhecemos, exagerada, hiperbólica, surreal, os personagens e os sentimentos são sempre humanos. É isto que me encanta neste homem exagerado, não quando ele é mais. É quando ele é menos. São os contra-tempos das cenas. A humanidade dos personagens após as falas eloqüentes, os diálogos non-sense, o derramamento de sangue. Suas personagens femininas falam até hoje comigo, todos os dias. Temos conversas longas, sem sentido, dramáticas, lacrimejantes e quase sempre loucas e cheia de paixão.

Nesta pele que eu habito há quase 33 anos, existem homens como Chico Buarque que me faz sonhar e flutuar e há homens como Almodóvar que me faz enloquecidamente delirar.